• Gustavo Granato

CLIMA DE GUERRA NA FINAL

CLIMA DE GUERRA, SUPERLOTAÇÃO E 7 EXPULSÕES: UMA FINAL ENTRE BRASIL X ARGENTINA QUE VOCÊ NÃO CONHECE


A década de 90 é tida por muitos como a melhor que já existiu, principalmente quando o assunto é futebol. Em 1998, tivemos a Copa Conmebol, que é a mesma Copa Sulamericana que temos nos dias atuais. Naquele ano, a final foi entre um brasileiro e um argentino: Santos x Rosário Central, que ficou conhecida como a Batalha de Rosário.


Muitas pessoas não sabem dessa final, muito menos tudo que acabou acontecendo nela, principalmente fora dos gramados. Além do mais, o que poderíamos esperar em uma final entre Brasil x Argentina, em uma competição da Conmebol?


PRIMEIRO JOGO


A final teve dois jogos, com o jogo de ida acontecendo no Brasil, na Vila Belmiro.

Aos 10 minutos do primeiro tempo, tivemos dois jogadores expulsos: Viola (Santos) e Scotto (Rosário) e aos 28 minutos o Santos abre o placar com Claudiomiro, 1x0. Poucos minutos depois, o árbitro expulsou erroneamente o zagueiro Jean por agressão, o que revoltou muito a equipe do Santos, que ficou com 9 jogadores antes do intervalo.

Santos 1 x 0 Rosário Central-ARG - Final Copa Conmebol 1998 Estádio: Vila Belmiro - Santos-SP Gol: 1° Claudiomiro (Santos)

No intervalo, alguns seguranças do Santos teriam feito ameaças ao trio de arbitragem no vestiário, que ameaçou não voltar para a etapa final e retornaram a campo protegidos por policiais militares.


No segundo tempo, Carracedo e Bustos Montoya foram expulsos, deixando o time do Rosário com 8 jogadores. Uma dessas expulsões, originou um pênalti para o Santos, que bateu mal e desperdiçou. O Santos ainda teve um gol anulado, aos 45 minutos do segundo tempo, e viu o técnico Emerson Leão ser expulso ao tentar agredir o árbitro da partida. O jogo foi repleto de reclamações, muitas faltas, agressões e muita provocação, principalmente do lado do time argentino, que comemorou a derrota de 1x0 por ter terminado com apenas 8 homens em campo.


Final entre um brasileiro e um argentino, 5 jogadores expulsos no jogo de ida, muitas provocações e reclamação com a arbitragem dos dois lados. A Batalha de Rosário tinha apenas começado.


SEGUNDO JOGO


11 dias depois, o segundo jogo da final foi na Argentina, no famoso Gigante Arroyto, com capacidade para cerca de 45 mil torcedores. O clima dos torcedores do Rosário era de raiva pelo jogo de ida e prometiam acabar com a paz da delegação do Santos.


Para se preparar para a guerra, o Santos montou uma verdadeira operação militar para driblar a torcida do Rosário. A delegação passou a noite anterior ao jogo, escondida em um hotel em Buenos Aires, não em Rosário. Essa era a recomendação da polícia argentina, com o argumento: “Para vocês não morrerem”.


O clima era tão hostil, que o Santos abriu mão do treino de reconhecimento do gramado, ao qual tinha direito pelas regras da Conmebol. A delegação só viajou para Rosário na tarde do jogo, com mais de dez seguranças, segundo o gerente de futebol, Marco Aurélio Cunha.

O presidente do Santos, Samir Jorge Abdul-Hak, convidou o presidente da CBF, Alfredo Nunes, para acompanhar a partida “in loco” nas tribunas do estádio, com o objetivo de o ter como testemunha se o Santos viesse a ter algum prejuízo.


“Já comuniquei a Federação Paulista, CBF e à Conmebol que se houver qualquer coisa estranha, o Santos não entra em campo.” - Samir Jorge Abdul-Hak

Porradaria e Terror Rosario Central vs Santos final CONMEBOL 98


Batalha de Rosário Para piorar a situação, o árbitro que iria apitar a partida, não agradou em nada os dirigentes santistas. O paraguaio Ubaldo Aquino, era acusado de prejudicar o São Paulo no ano anterior, na final da Supercopa, onde deu um pênalti inexistente ao River Plate, da Argentina.


Emerson Leão, que tinha sido suspenso pela Conmebol por 6 partidas, por ter tentado agredir o árbitro do primeiro jogo da final, teve autorização para assistir o jogo do banco de reservas. A punição foi “perdoada”, pelo fato de não ser seguro assistir o jogo das tribunas do estádio.


A partida teve atraso de 50 minutos, porque os jogadores do Santos temiam pela segurança, depois de quase terem sido agredidos por torcedores do Rosário na chegada ao estádio. Para conter a fúria da torcida do Rosário, policiais tiveram de dar pelo menos quinze tiros de calibre 12 para afastá-los da delegação do Santos. O volante Narciso, capitão da equipe do Santos, era o jogador mais visado pelos argentinos por conta de uma cotovelada no primeiro jogo no Brasil.


O presidente do Santos, Samir Jorge, chegou a cancelar a partida, dizendo que o Santos não entraria em campo por falta de segurança. A delegação foi convencida por policiais argentinos a entrarem em campo, alegando que não teria como fazer a segurança caso a equipe quisesse voltar ao hotel.

“Meus jogadores não tinham condições psicológicas para entrar em campo. Não tinham condição nenhuma, são jovens, todos com 20 e poucos anos… Só entramos mesmo porque se não tivéssemos entrado, poderíamos ter morrido, nós vamos jogar porque o Superintendente deles (Conmebol) disse que se não jogarmos, poderíamos morrer. Tudo coação, me deixaram até ficar no banco. Se na chegada já teve tiros, imagina como vai ser no final.” - Emerson Leão

A pressão na chegada da delegação foi muito maior que esperada, porque 7.000 torcedores do Rosário invadiram o estádio antes de abrirem os portões. Com capacidade para cerca de 45.000 pessoas, ao menos 52.000 estavam nas arquibancadas do Gigante de Arroyto. Na chegada ao estádio e na entrada ao gramado, foram atirados dezenas de ovos, pilhas e pedras nos jogadores brasileiros.


Dentro de campo, as melhores chances no primeiro tempo foram da equipe do Rosário. Nas três ocasiões, quem salvou o Santos com belas defesas foi o goleiro Zetti. O Rosário voltou muito nervoso para o segundo tempo. Com a necessidade de fazer um gol, o time argentino tentou cavar muitas faltas e pênaltis, gerando muita discussão, empurrões e paralisação do jogo pela arbitragem. As faltas, cotoveladas e entradas mais duras começaram a aparecer e Daniele e Eduardo Marques foram expulsos, deixando cada time com 10 em campo. Quando terminada a partida, o time do Santos mal pode ficar em campo, devido aos torcedores do Rosário estarem ameaçando entrar em campo para “pegar” a delegação brasileira.


Essa foi a final da Copa Conmebol de 1998, marcada até hoje como a Batalha de Rosário. Os acontecimentos extra campo, fizeram dessa final uma das mais tensas na história de Brasileiros x Argentinos. E olha que nessa época, os clubes brasileiros não valorizavam as competições da Conmebol, preferindo participar de torneios como o Rio-São Paulo, por exemplo. Até hoje, torcedores do Rosário Central, falam que essa final foi uma das mais marcantes da história do clube e do Estádio Gigante de Arroyto. Aquele time do Santos, também ficou marcado com o primeiro título internacional, após a era Pelé.



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