• Carlos Salvador

HEROIS DO FUTEBOL RAIZ

O que aconteceu foi digno de cinema.

Carlão está ausente do espaço aqui muito pelas novas atividades, inclusive no Estante, como apresentador do Podcast. Mas não podia deixar de rabiscar umas linhas sobre o que vimos na última rodada do Campeonato Catarinense, mais precisamente na partida entre Hercílio Luz e Joinville.


Para entendimento do contexto: O Hercílio era o primeiro time fora da zona de rebaixamento com 9 pontos, e para não depender de outros resultados na briga para não cair, precisaria vencer em casa. O adversário direto era o Criciúma, que jogava em casa com o já classificado Avaí. Remotamente também havia rádio ligado no jogo entre Chapecó e Metrô. Se o Hercílio não vencesse, Tigre e Metrô não podiam vencer também.


Neste feriado de 21 de abril, choveu durante o dia na cidade de Tubarão, aproximadamente 60mm. Faltando 3 horas para o jogo, o gramado novo do Aníbal Costa estava completamente alagado, o que deixaria a partida inviável para amantes do bom futebol.


A pressão para cima do Hercílio era enorme não só por seu adversário, suas condições e seu futuro. Mas principalmente por uma parte da cidade que infelizmente torce para um clube que não tem identidade própria, e que estando no limbo, gostaria que estivéssemos lá onde eles já estão, e pelo jeito não sairão tão cedo.

O jogo começa nervoso. Primeiro chute é do Hercílio logo com 2 minutos, assustando o arqueiro do Joinville. E aí... e aí meu amigo, esquece, não vou ficar aqui informando jornalisticamente a partida, porque não tive cabeça para tal. Era olho em duas telas, o jogo do Hercílio em vídeo e áudio, e o jogo do Criciúma só em vídeo, além de WhatsApp na mão, amendoim torrado na outra, e a roupa de um compromisso anterior ainda vestida, uma bela camisa azul com calça social e gravata.

Três minutos de jogo. TRÊS MALDITOS MINUTOS DE JOGO, e 1x0 pro Joinville. Não entrarei no mérito que o jogador do tricolor levou a bola com a mão. WhatsApp bombou: “lascou”, “já era”, e os secadores fazendo festa no grupo da família. Já até afrouxei a gravata. Dez minutos de jogo, DEZ INFELIZES MINUTOS DE JOGO, e um cara de concha me mete a bola na gaveta: 2x0 Joinvile. DOIZAZEROOOO COM 10 MINUTOS!! Tu é louco. Raiva pouca é bobagem. Aí o Whatsapp mudou da função provocação para a função desilusão: “acabou!”, “vamos torcer pelo Avaí contra o Criciúma”, “já era pra nós”.


Alguns minutos depois, que não me recordo com quantos, até porque já não tinha mais cabeça, Renato Soares desconta. 2x1. O pulso ainda pulsa. Mas ainda estava muito difícil, principalmente num gramado encharcado, que a bola não rolava com naturalidade. Eis que o Joinville perde por um momento a cabeça, e Helerson resolveu proferir palavras nada carinhosas ao homem do apito e foi imediatamente expulso. O detalhe: Foram necessários 10 minutos, DEZ MINUTOS pro camarada sair de campo, e só saiu após entrar a POLICITA MILITAR e o CHOQUE! O cara é macho. Foi burro, mas é macho.

No retorno da partida, o JEC continuava melhor, e o árbitro dá 8 minutos de acréscimo. Vamos aos 53 no primeiro tempo. Aos 52:30, falta pro Hercílio no círculo central. Bola levantada na área, bate rebate e o mundo parou. Luizão, LU I ZÃO! O Anti-Gol, o kryptonita, o Quase Gol, coloca no fundo da rede, sabe se lá como, deve ter sido sinais da chuva. 2x2. Estamos vivos! E na comemoração, Luizão tem uma atitude tão infantil quanto heroica a favor do Hercílio: tira a camisa para festejar, esbraveja e subliminarmente pensa: fiz o gol, não vou mais atrapalhar e é EXPULSO. EX-PUL-SO!


Aquela vantagem de um homem a mais, não existirá após o intervalo, pelo menos a desvantagem de um gol a menos também não.


Na volta do intervalo, o nervosismo e apreensão continuavam. O jogo em Criciúma tinha 40 segundos atrasados em relação ao jogo do Hercílio. A essa altura, o Metropolitano já era carta fora do baralho, com a derrota parcial por 2x0 para a chape.


Não demora muito, e um chute em diagonal rasteiro com gramado molhado enganou o melhor menor goleiro do mundo, Otávio, e balançou as redes do Leão. 3x2 pro Joinville. Mexe daqui, mexe dali, já nem vi mais quem saiu, quem entrou, já não tinha mais formação, estratégia, tudo era na base da vontade. E no início do segundo tempo só dava Joinville, o quarto gol era questão de tempo. Era, não foi.


Uma olhadinha mais atenta na partida entre Criciúma e Avaí, o fio de esperança era na ruindade do time Carvoeiro. Jesus amado, que tristeza, que time medíocre, que colheita merecida. Bastava só o Avaí se manter em pé em campo. Mas futebol assusta.

Voltando pro jogo do Hercílio, o 3x2 permanecia inviolável, até porque eram 10 cada lado num gramado pesado, num jogo aguerrido e disputado. Aos 32 minutos, nosso capitão, Rodolfo Mol, muito conhecido como "Piqué com Fome", é expulso após uma entrada violenta no atacante do JEC. A zaga agora ficaria apenas com "Boateng Brasileiro", e ele que lute. Um minuto depois, e o jogador do Joinville dá uma voadora considerável em Levi, e o juiz mais frouxo que bombacha em criança, apenas amarelou o defensor do Joinville. Confusão, empurra empurra, nada de mais sério. 2 minutos depois, Levi, o "Mahrez Magrelo", empata o jogo: 3x3. Haja WhatsApp explodindo. “vamo”, “vai dar”, “respeita essa camisa”, era tudo o que se lia e o que se escrevia.


Quatro minutos depois, pênalti no Heriberto Hülse. E não era pro Criciúma. Era pro Avaí. “É só fazer meu filho”. E fez! 1x0 pro segundo maior Leão de Santa Catarina. Festa na selva! Os Leões se ajudam.


O jogo ia se arrastando pra um empate maluco, mas com o registro de muita vontade (e necessidade) de vencer de ambas as equipes. E os outros resultados da rodada, não só evitariam a queda do Hercílio como, o classificariam se fizesse mais um gol.


Tu é louco. Nem queria sonhar. Nem era bom. Mas como é bom. Aos 48, PH, o homem perfeito para jogar na chuva, para o equilíbrio das águas, nosso "Dembélé do Anibal", encobre o goleiro do Joinville - que àquela altura estava com frio, por 90 minutos na chuva, e precisava daquele lençol – e faz: 4x3 pro Hercílio. QUATRO A TRÊS PRO HERCÍLIO! Lá se foi fone de ouvido, soco na mesa, gritaria, WhatsApp bombando, e a esposa perguntando se tava tudo bem. Tava sim meu bem. Tudo ótimo. Logo ela, que com maior tato do mundo, e de uma forma sincera havia me perguntado no domingo: “porque você torce pra esse time, se só te vejo sofrer por ele?”.


É por causa disso meu bem. Por causa de momentos como esse, de vitórias como essa, de dias chuvosos e gramados encharcados, de expulsões, de polícia em campo, de viradas épicas e de classificações heroicas.

O futebol raiz vive. E o Hercílio Luz prova isso!


CONFIRA A CLASSIFICAÇÃO FINAL E OS CONFRONTOS


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